Archive for Novembro 2003
DISCURSO DE ZURIQUE. Winston Churchill
«Desejo falar–vos, hoje, sobre a tragédia da Europa. Este nobre continente, englobando no seu todo as mais agradáveis e civilizadas regiões da Terra, gozando de um clima temperado e equilibrado, é a terra natal de todas as raças originais do mundo ocidental. É a fonte da fé cristã e da ética cristã. É a origem da maior parte da cultura, das artes, da filosofia e da ciência tanto dos antigos como dos modernos tempos. Se a Europa tivesse alguma vez ficado unida na partilha do seu património comum, não haveria limite à felicidade, à prosperidade e à glória dos seus trezentos ou quatrocentos milhões de habitantes. Mas foi da Europa que jorrou essa série de assustadoras quezílias nacionalistas, originadas pelas nações teutónicas, a que nós assistimos ainda neste século XX e no nosso tempo, arruinando a paz e frustrando as expectativas de toda a humanidade. E a que situação foi a Europa reduzida? Alguns dos mais pequenos Estados fizeram, na realidade, uma boa recuperação, mas, sobre largas áreas, uma vasta e agitada massa de atormentados, famintos, ansiosos e desnorteados seres humanos olham pasmados, das ruínas de suas cidades e de seus lares, esquadrinhando os negros horizontes por algum novo perigo, tirania ou terror. Por entre os vencedores há uma babel de vozes dissonantes; por entre os vencidos o mal humorado silêncio do desespero. É tudo o que Europeus, agrupados em tantos antigos Estados e nações, é tudo o que os Poderes Germânicos obtiveram rasgando–se uns aos outros, espalhando destruição em todo o redor. De facto, mas também por que a grande República de além Atlântico compreendeu, à distância, que a ruína ou escravização da Europa envolveria também a sua própria sorte e estendeu o seu auxílio e orientação, os Tempos Negros recolheram toda a sua crueldade e miséria. Que poderão ainda voltar. Mas, ainda é tempo para um remédio que, se genérica e espontaneamente adoptado, poderá, como por milagre, transformar todo o cenário, podendo em poucos anos fazer toda a Europa, ou grande parte dela, tão livre e feliz como a Suíça o é nos dias de hoje. Qual é este milagre soberano? É a recriação da Família Europeia, ou o mais possível que dela pudermos, provendo–a de uma estrutura sob a qual possa viver em paz, em segurança e em liberdade. Deveremos construir uma espécie de Estados Unidos da Europa. Só neste caminho poderão centenas de milhões de trabalhadores reencontrar as simples alegrias e esperanças que fazem com que valha a pena viver a vida. O processo é simples. Basta a decisão de centenas de milhões de homens e de mulheres de proceder bem em vez de mal, ganhando como recompensa bênçãos em vez de maldições. Muito trabalho neste sentido tem sido feito pelo empenho da União Paneuropeia que muito deve ao Conde Coudenhove–KALERGI e que recrutou os serviços do famoso patriota e homem de Estado francês, Aristide BRIAND. Há também esse enorme corpo de doutrina e de procedimentos que foi criado no meio de grandes esperanças depois da primeira guerra mundial: a Sociedade das Nações. A Sociedade das Nações não falhou pelos seus princípios ou concepções. Ela falhou por estes princípios terem sido abandonados por aqueles Estados que lhe deram vida. Falhou por causa dos governos desses dias recearem enfrentar os factos agindo enquanto havia tempo. Esse desastre não pode repetir–se. Há por isso muito conhecimento e material para utilizar: e também amargas e caras experiências. Fiquei muito satisfeito ao ler nos jornais, há dois dias, que o meu amigo Presidente TRUMAN expressou o seu interesse e acordo a este grande desígnio. Não há razão para que uma organização regional da Europa conflitua de qualquer modo com a organização das Nações Unidas. Pelo contrário. Eu acredito que a maior síntese só sobreviverá se construída sobre grupos naturais coerentes. Já existe um grupo natural no Hemisfério Ocidental. Nós, Britânicos, temos a nossa Comunidade de Nações. Estas não enfraquecem, pelo contrário reforçam, a organização mundial. São, na prática, o seu principal suporte. E por que não haver um agrupamento europeu que possa dar um sentido de alargado patriotismo e de comum cidadania aos povos desatentos deste turbulento e poderoso continente, e por que não toma ele o sua posição de pleno direito junto a outros grandes grupos na formação dos destinos dos homens? A fim de que tal possa ser realizado tem que haver um acto de fé no qual milhões de famílias, falando muitas línguas, tomem conscientemente parte. Todos nós sabemos que as duas guerras mundiais por que passámos nasceram da presunçosa paixão de uma nova e unida Alemanha destinada a desempenhar o papel dominante do mundo. Nesta sua última luta, crimes e massacres foram cometidos para os quais não houve paralelo desde as invasões mongóis no século catorze e sem igual em qualquer tempo na história humana. A culpa deve ser punida. A Alemanha deve ser desprovida do poder de rearmar–se e fazer outra guerra agressiva. Mas, quando tudo isto tiver sido feito, como será feito, como tem sido feito, haverá um fim para a desforra. Haverá o que o Senhor GLADSTONE, muitos anos atrás, chamou de “abençoado acto de esquecimento”. Todos nós temos que voltar as costas aos horrores do passado. Temos que olhar para o futuro. Não podemos arrastar, ao longo dos anos vindouros, os ódios e as vinganças que brotaram das injúrias do passado. Se a Europa deve ser salva de uma profunda miséria e, na realidade, de um julgamento final, tem que haver um acto de fé na família europeia e um acto de esquecimento para todos os crimes e loucuras do passado. Podem os povos da Europa erguer–se por cima destas decisões da alma e instintos do espírito do homem? Se puderem, os erros e injúrias que foram infligidas terão sido varridas em todas as partes pelas misérias que foram suportadas. Haverá mais alguma necessidade de novas enchurradas de agonia? Será a única lição da história a de que a humanidade não aprende? Haja justiça, perdão e liberdade. Os povos têm apenas que o querer, e todos alcançarão o desejo dos seus corações. Vou, agora, dizer–vos algo que vos admirará. O primeiro passo na recriação da família europeia deve ser uma parceria entre a França e a Alemanha. Só desta maneira pode a França recuperar a liderança moral da Europa. Não pode haver um ressurgimento da Europa sem uma grande França espiritual e sem uma grande Alemanha espiritual. A estrutura dos Estados Unidos da Europa, se bem e verdadeiramente construída, será a necessária à força material de um só Estado menos importante. As pequenas nações contarão tanto como as grandes e honrar–se–ão pela sua contribuição para a causa comum. Os estados e regiões da Alemanha, livremente reunidos por mútua conveniência num sistema federal, poderão tomar, cada um, o seu lugar individual dentro dos Estados Unidos da Europa. Eu não tentarei realizar um programa pormenorizado para centenas de milhões de pessoas que querem ser felizes e livres, prósperas e seguras, que querem gozar as quatro liberdades de que o grande Presidente ROOSEVELT falou, e viver conforme os princípios que dão corpo à Carta Atlântica. Se isto é o seu desejo, têm apenas que o dizer, e certamente que os meios podem ser encontrados, a máquina estruturada, para tal realizar em plena fruição. Mas devo fazer um aviso. O tempo pode ser escasso. Actualmente há um tempo para respirar fundo. Os canhões pararam de disparar. A luta parou; mas os perigos não pararam. Se formarmos os Estados Unidos da Europa, ou com qualquer outro nome ou forma que seja, temos que começar já. Nestes dias de hoje vivemos, estranha e precariamente, sob o escudo e protecção da bomba atómica. A bomba atómica está ainda nas mãos de um Estado e nação que nós sabemos não a usar excepto pela causa do direito e da liberdade. Mas pode acontecer que, dentro de poucos anos, este terrível agente de destruição esteja disperso e a catástrofe sequente ao seu uso, por várias nações rivais, levará não só ao fim de tudo aquilo a que nós chamamos de civilização como, possivelmente, à desintegração do próprio globo. Devo, agora, repetir as propostas que estão perante vós. O nosso constante objectivo deve ser a construção e o fortalecimento da Organização das Nações Unidas. Sob e dentro desse conceito mundial devemos recriar a família europeia numa estrutura regional chamada, por exemplo, de Estados Unidos da Europa. O primeiro passo será a formação de um Conselho da Europa. Se, numa fase inicial, nem todos os Estados da Europa quiserem ou poderem juntar–se à União, devemos, contudo, proceder à junção e combinação daqueles que o querem e daqueles que o podem fazer. A salvação das pessoas comuns, de todas as raças e de todas as terras, da guerra e da servidão deve ser estabelecida em bases sólidas e preservada pela disposição de todos os homens e mulheres de antes morrerem do que submeterem–se à tirania. Neste urgente trabalho a França e a Alemanha devem assumir, conjuntamente, o comando. A Grã–Bretanha, a Comunidade Britânica de Nações, a poderosa América, e, confio eu, a Rússia Soviética — para que, então, de facto, tudo possa estar bem — devem ser os amigos e os patrocinadores da nova Europa e devem defender o seu direito à vida e à luz. Por isso eu vos digo: Deixem a Europa erguer–se!».O processo de integração europeia que vivemos perm…
O processo dito de «constitucionalização» da União…
Não faz qualquer sentido estabelecer uma comparaçã…
Não faz qualquer sentido estabelecer uma comparação entre o processo constituinte norte-americano emergente da Convenção de Filadélfia de 1787 e o processo resultante da Convenção Europeia. Desde logo porque os pontos de partida são radicalmente distintos e diferentes. Contrariamente ao ocorrido nos Estados Unidos, na Europa os Estados envolvidos no processo de cosntrução da unidade europeia têm atrás de si uma história secular de independência e afirmação das suas individualidades – o que não sucedeu com os Estados participantes na Convenção de Filadélfia.
O processo de construção da integração europeia nã…
O processo de construção da integração europeia não foi assunto que preocupasse o governo português da década de cinquenta. Mas também não era assunto que motivasse ou preocupasse as oposições. O que se percebe bem. O projecto era fundamentalmente uma manifestação da Europa democrata-cristã. E em Portugal a oposição mais organizada era a oposição do Partido Comunista – que, praticando um seguidismo relativamente a Moscovo, criticava o processo.
A modéstia dos resultados a que chegou o Conselho …
A modéstia dos resultados a que chegou o Conselho Europeu de Nice acabou por ser reconhecida, de forma implícita, pela própria instituição que, anexa às suas Conclusões finais, aprova um documento intitulado “Declaração sobre o futuro da União” que lista as questões que vão estar no centro do debate europeu dos anos subsequentes, algumas das quais era suposto terem sido resolvidas pela própria Cimeira. Assim, e no quadro de uma futura revisão dos tratados fundacionais, deveriam ser equacionadas e respondidas fundamentalmente as seguintes questões: 1) a repartição de competências entre a União e os Estados-Membros; 2) a simplificação dos tratados; 3) o estatuto jurídico da Carta Europeia dos Direitos Fundamentais; 4) o papel dos Parlamentos nacionais na futura arquitectura institucional europeia. Ora, o carácter constitucional destas questões é perfeitamente inegável e inelutável.
O debate constitucional que se trava na Europa não…
O debate constitucional que se trava na Europa não pode perder de vista a sua matriz originária e a causa fundamental que deu origem ao processo de integração europeia. E na origem desse processo surge o questionar do princípio da soberania estadual. Para os pais fundadores do processo comunitário, após assistirem ao deflagrar de dois conflitos mundiais com as consequências conhecidas, impunha-se a substituição do sistema herdado da paz de Vestefália, assente no princípio da soberania ilimitada dos Estados, no qual as relações entre esses mesmos Estados eram antes de tudo relações assentes no poderio ou na força. As relações inter-estaduais eram sobretudo relações de força. E foi este sistema que os pais fundadores pretenderam alterar.
É natural que o esforço de reoganização internacio…
É natural que o esforço de reoganização internacional do pós-segunda guerra mundial tenha versado em primeiro lugar sobre as questões atinentes aos direitos do homem, logo após as questões de defesa e económicas, talvez antes mesmo das questões eminentemente políticas. A necessidade de preservar a humanidade contra atrocidades semelhantes às da segunda guerra mundial constituiu um amplo consenso. O preâmbulo da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, assinada em Roma em 4 de Novembro de 1950, ilustra esse mesmo consenso. Tributário de um pensamento fortemente jusnaturalista, o referido preâmbulo apela a um património comum de ideais e tradições políticas, de respeito pela liberdade e de prevalência do direito. Porém, como esse património comum não havia impedido as duas guerras mundiais, impunha-se submeter a acção dos Estados ao controle do que na altura ainda não se designava de comunidade internacional. Para o efeito os Estados não se deveriam poder subtrair ao respeito pelos princípios integrantes de tal património comum – os quais se deveriam volver em verdadeiras regras jurídicas, ultrapassando-se o carácter meramente proclamatório que não tinha sido ultrapassado, por exemplo, pela Declaração Universal dos Direitos do Homem adoptada pela Assembleia Geral das nações Unidas em Dezembro de 1948.
Num processo político sem igual nem precedente his…
Num processo político sem igual nem precedente histórico que se lhe assemelhe, como é o da criação e desenvolvimento da União Europeia, pode suscitar-se a questão de saber se é legítimo e correcto o recurso a “instrumentos” e instituições pensadas para a realidade estadual e adaptá-los à realidade da União Europeia, ainda que conferindo-lhes um significado novo e um sentido próprio. A figura da «Constituição» ilustra com perfeição essa dúvida que não pode ser apenas semântica. Acontece que, pedir emprestada à realidade estadual alguns instrumentos, institutos ou instituições para os utilizar no processo de construção da União Europeia pode obrigar a rever e reformular por completo esses conceitos. Não parece, assim, muito acertado que uma realidade que se quer nova e diferente recorra a figuras típicas de outra forma de organização política, neste caso o Estado.
Se é verdade que o Conselho Europeu de Nice abriu …
Se é verdade que o Conselho Europeu de Nice abriu as portas à adesão de doze novos Estados-Membros à União Europeia, não é menos verdade que deixou bem patentes todas as fraquezas da União e as suas debilidades internas. Enredados numa lógica puramente intergovernamental de negócios e permutas de parcelas de poder (algumas vezes mais aparente do que real) os chefes de Estado e de governo deixaram por responder duas questões verdadeiramente fundamentais que estavam subjacentes ao processo negocial: 1) quais as tarefas, missões e ambições da nova União Europeia alargada? 2) Como organizar política e institucionalmente a nova União Europeia alargada por forma a que a mesma possa responder às suas novas missões e ambições?








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